
Até vir morar aqui, nunca havia cogitado, que havia um complexo mecanismo a garantir que a cama estivesse arrumada todos os dias, as roupas, passadas e guardadas. Passados alguns anos de independência doméstica, já estou pensando em criar um Nobel a ser dividido entre empregadas e criadores de comida congelada, pois são eles, em seus respectivos hemisférios, a salvar o mundo.
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Apesar de toda a perda de tempo, morar sozinho (quer dizer, longe da família) é um exercício de asseio mental: nada mais refrescante do que a liberdade absoluta. Liberdades trazem consigo responsabilidades, e, para os que estão a fim de embarcar em vôo solo, achei que talvez devesse repartir alguns aprendizados extraídos desta jornada autônoma. São eles:
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O incrível poder do olfato. O olfato controla quase tudo: se uma roupa está cheirando, está na hora de ser lavada (e nunca antes disso); quando o leite ou qualquer outro alimento fede, está na hora de ser jogado fora (ou virar compota); quando a cozinha está impenetrável, é porque chegou a hora de tirar o lixo. Se continuar fedendo, hummm, é ruim: chegou a hora de limpar o chão. O mesmo vale para sala e demais cômodos (se bem que a distinção entre cômodos seja irrelevante quando se mora sozinho: é mais provável que você vá transar na cozinha e comer o café na cama do que o contrário);
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Abaixo as convenções. Morar sozinho é um exercício de rebeldia calculada. É libertar-se do jugo das convenções sócio-domésticas. Sabe aquela história de ter de lavar roupa de baixo todos os dias, trocar roupa de cama toda semana, almoçar ao meio-dia e meia e jantar as oito levantar a tampa da patente, não ouvir o som depois da meia-noite, tomar banho diário e não jogar o cotonete no vaso? Sabe? Pois, depois de um meio ano na casa nova, quando já houver meia no ar-condicionado e arroz na mesa de cabeceira, você vai estar dando sonoras gargalhadas desse passado distante;
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A imprescindibilidade das máquinas. Há duas máximas de morar sozinho: você não pode ter tempo e não pode ter empregada. Se tiver tempo, é porque não está aproveitando a vida nova, então o melhor é voltar para as asas maternas. E, se tiver empregada, obviamente não está morando sozinho. Por isso, para o legítimo “homo solitarius”, as máquinas são fundamentais. A saber: máquina de lavar e secar roupa, de lavar e secar louça, geladeira com congelador grande, aspirador de pó, “dustbuster” e microondas. As máquinas pra lavar e secar roupas são fundamentais porque não há tempo para lavar à mão. Lavar louça é a tarefa mais chata de todas, então uma lava-louças é necessaríssima. A geladeira dispensa explicações: o congelador grande é pra guardar as pilhas de comida congelada. (E quem diz que comida congelada é ruim é mentiroso, porque elas, comprovadamente, não têm gosto nenhum.) O aspirador de pó é fundamental porque substitui a vassoura, muito trabalhosa. E o microondas, claro, que é tão importante quanto a chave de casa. Ainda faz as vezes de secador de cabelo em caso de emergência;
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Empregadas: a oitava maravilha do mundo. Mais que pais, tios, irmãos e papagaios, pode apostar aí: é de uma empregada que você mais vai sentir falta. Depois de alguns anos morando sozinho, o entusiasmo vai embora, e você quer mesmo é uma comida tragável e alguém que lhe passe a camisa. Chegou então a hora de se casar: uma família e só uma família justifica a contratação de uma empregada. (espera ai falei Família? Melhor pararmos por aqui).
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Até semana que vem!
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